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Valetas Fundas

A vida é amarga e doce. E com a profunda vivência desses dois estádios, acabamos por perceber que nem tudo é como um dia sonhámos. Mas o nunca não existe; resta o tempo. Para ignorar, curar, crescer! E viver.

Valetas Fundas

A vida é amarga e doce. E com a profunda vivência desses dois estádios, acabamos por perceber que nem tudo é como um dia sonhámos. Mas o nunca não existe; resta o tempo. Para ignorar, curar, crescer! E viver.

Retalhos

Bárbara Celta, 27.02.21

Entrava. Alto, magro, sempre sorridente e o seu inseparável chapéu. Maneiras distintas e refinadas. A dignidade e o trato de um cavalheiro. Tinha o dom da comunicação, enquanto se multiplicava entre o profissional, o social e o familiar. Durante aqueles três anos permaneceu fiel àquela pastelaria do fundo da avenida. E é de realçar que dificilmente alguma outra pessoa tenha animado mais, com prazer, entusiasmo e amizade, seres ávidos do mundo surpreendente que se lhes abria, ali, ao virar da esquina.

cafe.jpgA essa hora de início de tarde, as mesas eram compostas por servidores do comércio e funcionários públicos. Que, em boa verdade, não se demoravam muito. Apenas o tempo do “cafezinho”.

O resto era os que estacionavam. Vindos de outras paragens - menos movimentadas, mais rudes, menos sem atractivos. Em busca do Saber, da convivência, de outras formas de pensar, de lições dos mais velhos; de brincadeira; de aprender a saber estar. Enfim, de tudo aquilo que satisfaz a curiosidade e é próprio de uma idade em pleno desenvolvimento e formação da personalidade.

Gentil e bem disposto, o Sr. Maciel não havia dia em que não reservasse uns largos minutos - às vezes mais – para trocarmos impressões, visões e posturas de recém-adolescente  vs. jovem-adulto. Acabado de casar. E de quem jamais se pode esquecer a imagem de marca: “desde que me casei, acabaram-se todos os meus problemas”. Incrível! Que conste por aí, deve ter sido o primeiro e o último. Pelo menos que o admitam, e ressalvando que não foram ouvidas as duas partes. Apesar de que, de uma pessoa tão leve, super bem disposta e mega espontânea, para não falar do seu ar feliz e despreocupado, outra coisa não seria de esperar.

Nesta geração, mandava quem podia. Obedecia, não quem queria, mas sim quem tinha suficiente agilidade para manter o equilíbrio, i.e., aqueles para quem a sensatez era um mandamento a cumprir. E isto era válido tanto nas vidas familiar, quanto profissional ou académica. Usar mais os ouvidos do que a boca, não era exactamente uma questão de submissão, mas de ouvir e assimilar tudo para aprender mais. As hierarquias bem delimitadas.

(Hoje as relações são muito menos rígidas e as hipóteses de contestação muito maiores, se bem que isso não devesse significar o aval para comportamentos, por vezes tão ordinários, mais próprios de delinquentes do que de gente dita “civilizada”.)

makelovenotwar.jpgEra a geração a que chamam dos Baby boomers, na linha da qual Íris se situava, algures, a meio. Daqueles que nasceram no período, já avançado, pós-II Guerra Mundial. Uma geração assumida, distinta e invejável. Quiçá aquela que muitos gostariam de ter vivido. A tal que trouxe a era da Paz&Amor (Make Love not War) - neste tempo os jovens abominavam guerras e conflitos. Sendo que o nome baby boomer ficou a dever-se ao disparar da taxa de natalidade do período, aquando do regresso a casa dos soldados combatentes na II Guerra.

Os nascidos nesta época, foram massacrados com notícias do deflagrar de um conflito angustiante e infindável: os vinte longos anos da Guerra do Vietname; também foram os primeiros a crescer com a televisão como sendo o principal meio de comunicação de informações; na infância, adolescência e vida adulta jovem, viveram ainda o clima de tensão do período da Guerra Fria, o que necessariamente influenciou bastante a sua visão política.

Tiveram o privilégio de ver nascer The Beatles, a quem os "os 4 de Liverpool" - John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Star - deram forma, unindo-se em 1962. Uma das bandas mais bem sucedidas de todos os tempos, ao ponto de John Lennon comentar, em certa entrevista, que The Beatles eram "mais populares do que Jesus Cristo". Baseava-se, dizia, no facto de "sentir que o público seguia muito mais entusiasticamente a banda do que propriamente os passos de Jesus, sinal de que a fé cristã degenerava proporcionalmente ao aumento da paixão pelo rock." 

Foram contemporâneos do Maio de 68 – a explosiva revolta estudantil e operária, que ocorreu em França nesta data, e mudaria para sempre o Ocidente. Alguns filósofos e historiadores afirmaram, até, que essa rebelião foi o acontecimento revolucionário mais importante do século XX, por não ter na sua origem apenas uma camada restrita da população, como trabalhadores ou minorias, mas acabando numa insurreição popular que superou barreiras étnicas, culturais, de idade e de classe. Na rua gritava-se "a anarquia sou eu; parem o mundo, eu quero sair; é proibido proibir"!

Foi ainda nesta  época  que surgiu o movimento hippie, ligado umbilicalmente à cultura musical. Consequentemente, os artistas mais carismáticos, influentes e aplaudidos, passaram a ser os grandes e principais difusores da ideologia hippie. Músicos como Bob Dylan, Jimmy Hendrix, The Beatles e Janis Joplin emergiram nessa período e abraçaram os ideais hippies, tanto nas suas músicas quanto nos seus estilos de vida.

Uma das grandes lutas deste movimento foi pelo fim do conflito no Vietname. Neste combate puseram todo o seu empenho e fervor. Sendo que o auge do movimento ocorreu a par dos aguaceiros do fim-de-semana de 15 a 18 de Agosto, em 1969, com o lendário festival de música Woodstock. Na fazenda de gado leiteiro de Max Yasgur, cidade de Bethel, estado de Nova York, EUA, batalharam afincadamente com as armas de que dispunham - a música e a palavra!

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Este evento reuniu trinta e dois dos maiores e mais influentes músicos dos Estados Unidos na época, e um público de 400 mil pessoas eufóricas com o fim da guerra e a esperança de um futuro de paz, sendo reconhecido como um dos maiores momentos na história da música popular e exemplificando a era da contracultura do final da década de 1960 e começo de 1970.

Desde Richie Havens, que primeiro subiu ao palco para actuar, até ao derradeiro Jimi Hendrix, foi um desfile de celebridades que exaltaram ânimos e fizeram subir a adrenalina. Entre outros, e só nomeando os mais sonantes, Melanie Safka, Joan Baez, Arlo Guthrie, Credence Clearwater Revival, Santana, Janis Joplin, The Who, Joe Cocker, Ten Years After, Blood Sweat and Tears, Crosby Steals Nash and Young, foram alguns dos que levaram a multidão ao rubro. Ao delírio absoluto!

Viveram também, ansiosos e atónitos, a emoção do primeiro humano a pôr o pé na Lua, único satélite natural da Terra, a 20 de Julho de 1969, em que o mundo susteve a respiração quando o pequeno écrãn transmitia o fim feliz de um sonho: o primeiro homem pisava solo lunar e podia ser visto em directo! Coube a façanha a Neil Armstrong, a quem o facto imortalizou. O astronauta americano era o comandante da Apollo 11 - a expedição organizada pela Nasa que levou três astronautas para a Lua (somente dois pisaram solo lunar).  Além de Neil Armstrong (primeiro homem a alunar), contava a expedição com Buzz Aldrin (segundo homem a ter a mesma honra) e Michael Collins (não alunou por ter ficado no Módulo de Comando).

neilarmstrongmisterio.jpgFoi esta geração a quem coube a honra e o prazer dos chutos miraculosos de Eusébio – alcunhado de “Pantera Negra” -, Pelé e Maradona;  de ser contemporânea de personagens míticas como Martin Luther KingJohn Kennedy e das estrelas Marilyn Monroe e Brigitte Bardot; Tina Turner, Frank Sinatra e Elvis Presley; Doors, Pink Floyd, Led Zeppelin, Rolling Stones e Deep Purple, entre outras.

vilardemouros.jpg

Em 1971, viveram o festival mais antigo do nosso país, na idílica aldeia de Vilar de Mouros (Caminha) - um ponto perdido na natureza, envolto em paisagens de sonho, curso de água límpida e fresca, vegetação intensa e verdejante: o paraíso na Terra!

Este festival - considerado  o Woodstock” português – contou com a presença de Elton John, Manfred Mann, Amália Rodrigues, Duo Ouro Negro, os principais grupos pop portugueses e a Banda da GNR.

Os espectáculos aconteceram em 3 fins-de-semana de Agosto. O primeiro dedicado à Música Clássica, o segundo ao Pop Rock (nacional e estrangeiro) e o terceiro ao Fado e à Música Tropical. Pelo palco passaram alguns nomes sobejamente respeitados até aos dias de hoje, como o são António Vitorino de Almeida, Olga Prats e Natália Correia. Dos grupos pop portugueses destacam-se o Quarteto 1111 de José Cid, os Pop Five Music Incorporated, Psico, Sindicato de Jorge Palma, Chinchilas, Mini Pop e os Objectivo.

Foi uma edição tão bem sucedida que, apesar de anteriormente outras terem sido já realizadas – de notoriedade muito mais modesta -, lhe foi atribuído o “ano de nascimento do Festival de Vilar de Mouros”. Mais tarde, mas ainda a tempo desta geração, os Stranglers  e os U2, para nomear os mais afamados, deram vida ao segundo festival desta dimensão, em 1982.

Além disso, tiveram ainda, os baby boomers, tempo para ver, viver e fruir do histórico momento da queda do muro de Berlim, em 9 de Novembro de 1989. Um facto determinante na História Mundial: para além da queda da Cortina de Ferro, significou também a queda dos regimes comunistas na Europa Oriental e Central, a reunificação da Alemanha (Oriental e Ocidental) e o fim da Guerra Fria.

E por fim, mas não menos importante, teve a oportunidade de passar também pelo período de evolução tecnológica e pelo desenvolvimento dos meios de comunicação, gozando de uma relativa estabilidade, estando activa física e mentalmente. Sendo que, apesar de se ter adaptado ao “mundo 4.0”, a geração dos Baby boomers é infinitamente menos dependente do smartphone do que as que se lhe seguem.

bibliotecaitinerantegulbenkian.jpg

Não obstante, enquanto esse mundo não chegava, para uma adolescente de província que estudava à luz do petróleo, a grande fonte do seu imaginário era a visita mensal do Citroën da Gulbenkian. Esperado ansiosamente e em data precisa. Aquele odor a tinta e a papel; o cheiro a livros - único, embriagador, inconfundível-, que andavam de mão em mão, de terra em terra, era inebriante. Capaz de despertar sentimentos elevados, criar novas emoções, activar memórias afectivas, fazer voar a imaginação e nascer a criatividade. O manjar dos Deuses para um mês! 30 dias!! 720 horas!!! 43200 segundos de prazer.