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Valetas Fundas

A vida é amarga e doce. E com a profunda vivência desses dois estádios, acabamos por perceber que nem tudo é como um dia sonhámos. Mas o nunca não existe; resta o tempo. Para ignorar, curar, crescer! E viver.

Valetas Fundas

A vida é amarga e doce. E com a profunda vivência desses dois estádios, acabamos por perceber que nem tudo é como um dia sonhámos. Mas o nunca não existe; resta o tempo. Para ignorar, curar, crescer! E viver.

O comboio das sete

Bárbara Celta, 14.02.21

Sete da manhã! Era vê-los sonolentos, mas animados. Ágeis, entusiasmados e alegres. Despertavam do sono e para a vida. O despontar de cada dia era um apelo a novas descobertas. Parafraseando John Ruskin - que foi tudo e até um importante crítico de arte -, "ao despontar do dia, a melhor oração consistia em pedirem a aventura de não perder nenhum dos seus instantes."

Adivinhava-se já o comboio. Um apito; um ruído rouco; um ligeiro trepidar de carris. Um pássaro a chilrear que levantava voo, assustado; o galo que cantava. A madressilva que floria; o perfume fresco da manhã. O pequeno intervalo entre o querer e o chegar - adrenalina pura. E o Cid a saltar o beiral! Coisas de quem vive do outro lado e sai da cama ao escutar o primeiro assobio. Ninguém estranhava.

Embarcados, no vidro embaciado pela diferença de temperatura exterior, já se lia Brian Jones. Era questão de honra, para Mr. Telles, homenagear, infalível e diariamente, o malogrado fundador dos Rolling Stones. Um dos que pertence ao "clube dos 27", estilo "sexo, drogas e rock'n roll".

E quase no fim da viagem? Esses, já mais crescidos, abusavam da sorte: a configuração física do terreno que lhes permitia ver e, simultaneamente, serem vistos. Aí, o comboio tinha que aguardar a chegada dos rapazes. Era algo precioso ver, a sua corrida ansiosa e atrapalhada, da estrada para a estação. Apanhavam-no já em andamento.

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O ritual prolongava-se por alguns anos. O tempo de conseguir o canudo, no Téncico ou no Liceu. [Mais no Técnico, que colégios (caros, de freiras) havia em vários concelhos e deslocação é coisa de pobre...]. De maneira que estas e outras cenas eram o pão-nosso de cada dia.

O ambiente pontuava por familiar, alegre, irrequieto e festivo. O pessoal da CP, de tão acostumado, facilitava. E até dava uma ajuda. Pode dizer-se que éramos tratados com afeição. Afinal, para além de alguns (poucos) trabalhadores nos Estaleiros Navais (ENVC) e outros passageiros ocasionais, eram os estudantes a grande fonte de receita do ramal.

Na época, de Monção a Viana, a nossa Rolls Royce chegava apinhada à cidade. Dia após dia, um desejo que se cumpria, significava uma nova esperança que pululava. Era um regurgitar de vida. Um sonho que se realizava. Que a Série 0400 de automotoras locomovidas a diesel tornava possível. À velocidade máxima de 110 km/h. Pomposa e carinhosamente apelidadas de Rolls Royce, por certo agraciando a fabricante do seu motor de tracção hidráulica. 

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Este brinquedo, de cabinas lisas e cujas superfícies exteriores eram cobertas de placas metálicas cinzentas e de forma corrugada, esteve ao serviço da companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses e da sua sucessora, a transportadora Comboios de Portugal (CP), entre 1965 e 2001.

A estação ferroviária monçanense esteve activa entre 15 de Junho de 1915, data da sua inauguração, e 31 de Dezembro de 1989, aquando da respectiva desactivação. Tempos de mudança e diferentes vontades obrigaram a adaptação. Sobretudo em conformidade com as condições de mercado. 

Do mesmo modo, a CP criada em 11 de Maio de 1860, pelo empresário espanhol José de Salamanca y Mayol, nomeada Companhia Real dos Caminhos de Ferro Portugueses, com o objectivo de construir as linhas ferroviárias que ligassem a cidade de Lisboa ao Porto e à fronteira com Espanha em Badajoz, foi sofrendo transformações de base ao longo dos tempos.

Mudou a sua designação após a Implantação da República Portuguesa, em 5 de Outubro de 1910, para Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses. Na primeira metade do Século XX, passou por um processo de expansão, tendo assimilado várias empresas ferroviárias privadas e os caminhos de ferro que tinham estado sob a gestão do Governo Português.

Após grave deterioração da sua situação económica, na sequência da II Guerra Mundial e do desenvolvimento dos transportes rodoviário e aéreo, foi nacionalizada depois da Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974.

Entretanto "a geração de Brian Jones" havia medrado e crescido e a adolecência (teoricamente) passado. Ficara a memória grata do "comboio das sete da manhã/sete da tarde", intervalo que representa um fervilhar de emoções, alegrias não contidas, novas conquistas, revelações e vivências inusitadas. Os inesquecíveis centenários. O dar os "bons-dias"  à cidade na máquina de discos de um café, saindo da estação, avenida abaixo.

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Mungo Jerry - "In the summertime" -, um delírio; Otis Redding - "(Sittin'0n) the dock of bay" - obrigatória; The Rolling Stones - I can get no satisfaction - adrenalina ao rubro; Janis Joplin, Led Zeppelin, Procol Harum, The Beatles, The Shadows, Bob Dylan, Leonard Cohen, Elvis Presley, Aretha Franklin, Jimi Hendrix, porventura os que mais moedas consumiram.

 

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Sim, porque os outros, aqueles de "constituir família", ouviam-se nos semanais e obrigatórios bailes de Domingo à tarde, numa garagem ou clube perto de si; numa fábrica desactivada ou mesmo numa ilhota perdida no rio Minho! Houvesse pilhas... Quem não se lembra de "Je t'aime moi non plus", "28.º à l'ombre", "Non son degno de te"; Roberto Carlos, Adamo, Júlio Iglésias, Juan Manoel Serrat, Patxi Andion,...? 

Por entre a confusão reinante na vida adolescente - o exagero de ser, a busca da identidade, a formação da personalidade, as constantes revelações do desconhecido, a percepção-, é determinante a metamorfose, a transição, as competências que se adequirem, a descoberta de tantos caminhos a trilhar, a alegria contagiante, a rebeldia e irreverência que tornam os dias desafiantes e alavancam o impulso de viver... mas, sobretudo, a velocidade vertiginosa com que se esfuma e se esvai; as marcas que ficam; o caráter que se forma!

- Vídeo in Youtube, Linha 2 - Comboios Portugueses, Ramal de Monção 1969.
        Fotos: Escola Industrial e Comercial de Viana do Castelo (1969);
            Automotora da série 0400 circulando na Linha do Minho, in Wikipédia;
                 Leonard Cohen; Arinho - rio Minho.