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Valetas Fundas

A vida é amarga e doce. E com a profunda vivência desses dois estádios, acabamos por perceber que nem tudo é como um dia sonhámos. Mas o nunca não existe; resta o tempo. Para ignorar, curar, crescer! E viver.

Valetas Fundas

A vida é amarga e doce. E com a profunda vivência desses dois estádios, acabamos por perceber que nem tudo é como um dia sonhámos. Mas o nunca não existe; resta o tempo. Para ignorar, curar, crescer! E viver.

Travessia atribulada

Bárbara Celta, 07.02.21

Chegou! Cabisbaixa, pensativa e ansiosa. 

Era Inverno. O comboio que galgava os 50 kms que a separavam da escola que frequentava, na volta e a meio do percurso, estacou! Era uma árvore que as fortes rajadas de vento fizeram tombar na via-férrea.

camarido.jpgNeste ponto, o pinhal do Camarido que o nosso Rei Lavrador, D. Dinis, mandara um dia semear, era rasgado pelo efeito do progresso. Afinal, há muito que a 2.ª Revolução Industrial tinha ocorrido. Para trás ficavam as 1.ª e 2.ª Guerras Mundiais; a Guerra Civil de "nuestros hermanos". Por cá, em terras lusas, tinha findado o governo do Prof. Oliveira Salazar que, embora à custa de muita repressão, sacrifícios e contenção, conseguira pôr cobro à instabilidade política reinante e sanear com sucesso as finanças do país.

Vivia-se, por assim dizer, com um pouco mais de desafogo socio-económico. Era a Primavera-Marcelista! Daí que, uma adolescente com parcos recursos económico-financeiros, ainda que com mil sacrifícios e uma gigantesca dose de vontade e determinação, pudesse ir além da 6.ª classe (4.ª obrigatória, mais dois anos caídos do céu imediatamente antes, ainda em dias menos soalheiros).

Sendo então que, terminado o episódio rocambolesco e o acontecimento sanado, a viagem prosseguiu. Nada de grave a assinalar. O que poderia ter sido um infeliz acidente de percurso não foi além de um incidente e do tempo necessário para consertar o dirtúrbio, desobstruindo a via. Escassos quilómetros faltavam para o fim. E, não fora a atitude de determinados companheiros de viagem, por certo não mais sairia das profundezas das cavernas mais recônditas do inconsciente. Todavia, há momentos que marcam indelevelmente a existência. 

linhaferrearaparigaviola.jpgAos 13 anos, Íris começava a conhecer aquele sentimento de impotência que até então ainda só suavemente lhe corroía o íntimo. Antes, porventura, o impacto tivera como amortecedores aquelas por quem era cuidada, protegida e amada. A quem, por força, relatou o acontecido. Tão simples como, prevendo a demora - que acabou por não ser grande - em sanar o referido constrangimento,  cada um tentou desenvencilhar-se como pôde. Seguir viagem pelos meios de que dispunha. Convidar para acompanhantes todos os amigos e conhecidos. E, muito provavelmente,  por inveja e menosprezo, retaliarem fazendo vista grossa para quem, por sinal, era bem chegado, quase vizinho, em quem facilmente tropeçavam, só por considerarem que "andas a estudar?, desenrasca-te, quem não tem dinheiro não se mete em flostrias... Nós, que o temos, não chegámos lá! Nem sequer os nossos, que ainda tentaram, mas... perderam-se na encruzilhada!" Se não o disseram por palavras, a atitude disso foi demonstrativa. Por demais comum e, aliás, previsível, para não ser assimilada.

Não sendo imune à dor e revolta que o relato provocou, dava-se conta agora, com mais intensidade, do mundo que à sua frente desabrochava. E não era de todo cheio de matizes luminosos. Subtilmente, ou talvez não!, os "buracos negros" afluíam...

Começava a conhecer mais de perto o Ser humano na sua insuficiência, angústia de desejos não realizados e inquietude por inabilidade em construir a sua própria existência. Onde se encaixam perfeitamente as mentes perversas que não suportam uma sombra do outro - se bem que imaginária -, sentindo-se deveras ameaçadas por uma camisa lavada, mesmo que de marca "em 15.ª mão".

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Iniciava assim o processo de: auto-controlo inerente a uma força de vontade inabalável; aprender a lutar pela sobrevivência; saber ignorar o indesejável; perseguir ideais; saber e ter coragem de saltar obstáculos; acreditar; insistir, persistir e não desistir. Fosse voando, correndo, andando ou mesmo rastejando, seguir em frente! Desde que não atropelando, subornando ou assediando alguém.

 

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Porque cada um é um mundo e dele tem a sua chave, terá que vencer as forças de bloqueio. E à boa maneira existencialista de Sartre, cada pessoa tem de alicerçar a sua própria vida, escolhendo e definindo o que é bom, ou não, para si. O mesmo será dizer que "o importante não é o que fazemos de nós, mas o que nós fazemos daquilo que fazem de nós."